sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cresce o número de Conflitos e de Violência no campo

Cresce o número de Conflitos e de Violência no campo

Esta 25ª edição de Conflitos no Campo Brasil não tem nada de comemorativo, pois apresenta crescimento tanto do número de conflitos envolvendo camponeses e trabalhadores do campo, quanto da violência em relação ao ano anterior de 2008.

O número total de conflitos soma 1184, contra 1.170, em 2008, com aumento considerável em relação especificamente aos conflitos por terra, 854 em 2009, 751 em 2008.

Quanto à violência, o número de assassinatos recuou de 28, em 2008, para 25, em 2009. Outros indicadores, porém, cresceram, alguns exponencialmente. As tentativas de assassinato passaram de 44, em 2008, para 62, em 2009; as ameaças de morte, de 90, foram para 143; o número de presos aumentou de 168, para 204. Mas o que mais choca é o número de pessoas torturadas: 6, em 2008, 71, em 2009. O número de famílias expulsas cresceu de 1.841, para 1.884, e significativo foi o aumento do número de famílias despejadas de 9.077, para 12.388, 36,5%. Também elevou-se o número de casas e de roças destruídas, 163%, 233% respectivamente. Em 2009, registrou-se 9.031 famílias ameaçadas pela ação de pistoleiros, contra 6.963, em 2008, mais 29,7%.

Cresceu o número de ocupações

A violência, porém, não fez os movimentos do campo recuarem. Aumentou o número de ocupações de terra, 290 em 2009, 252 em 2008. Em relação ao número de acampamentos, estes diminuíram de 40, em 2008, para 36, em 2009, mas cresceu o número de pessoas nos acampamentos: passou de 2.755 em 2008, (media de 68 famílias) para 4.176, em 2009, (média de 116 famílias por acampamento).

Criminalização crescente dos movimentos sociais

O incremento de conflitos e de violência inseriu-se num contexto nacional preocupante de crescente criminalização dos movimentos sociais tanto no âmbito do Poder Judiciário, quanto do Poder Legislativo, amplificada inúmeras vezes pelos grandes meios de comunicação social.

No âmbito do Poder Judiciário destacou-se a figura do próprio presidente do Supremo Tribunal Federal, STF, Gilmar Mendes, que no início de 2009 saiu a público acusando os movimentos de praticarem ações ilegais e criticando o Poder Executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica tais atos. Esta intervenção, certamente, serviu de suporte para o alto número de despejos, para o crescimento das prisões e de outras formas de violência, e forneceu munição para a bancada ruralista do Congresso Nacional criar a uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, CPMI, conhecida como CPMI do MST.

O mesmo presidente do Supremo, em fevereiro de 2010, durante cerimônia de lançamento do Programa Observatório das Inseguranças Jurídicas no Campo, da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), assinou convênio com esta entidade para prestar serviços de consultoria ao CNJ, em relação a processos nas áreas fundiária e ambiental.

No âmbito do poder legislativo, além da CPMI que tenta incriminar os movimentos sociais do Campo, em 2009, foram apresentados mais de vinte (20) projetos de lei e propostas de fiscalização que, direta ou indiretamente, criminalizam os movimentos agrários ou visam impedir avanços na política agrária. O primeiro deles é a PEC 361, de 2009, que quer estender as competências constitucionais relacionadas à política fundiária para Estados, Distrito Federal e Municípios. Outros projetos propõem transferir competências do Executivo Federal para o Congresso Nacional como, por exemplo, a competência das desapropriações por interesse social, ou a de aprovar os índices de produtividade da terra.

Já no âmbito do Executivo. Em 2009, fica clara a prioridade dada ao capital para continuar se expandindo e avançando por novas áreas, em detrimento dos povos indígenas e das comunidades quilombolas e de outras comunidades tradicionais. A grilagem de terras públicas da Amazônia foi sacramentada pelo MP 458, transformada rapidamente em Lei pelo Congresso Nacional. A construção de barragens, sobretudo as da Amazônia, vão sendo empurradas goela abaixo da população, apesar de todos os estudos e manifestações em contrário, de modo particular a de Belo Monte, no rio Xingu.

http://www.cptnac.com.br/?system=news&action=read&id=3642&eid=6

domingo, 11 de abril de 2010

OS DONOS DA MÍDIA NO BRASIL


OS DONOS DA MÍDIA NO BRASIL
GRUPO 1

O primeiro grupo – os “cabeças-de-rede” – são as famílias que controlam as redes de nacionais de comunicação, de TVs, rádios, e jornais de circulação nacional.

- Organizações Globofamília Marinho

- Rede Record – Igreja Universal - Edir Macedo

- Sistema Bandeirantes de Comunicação – família Saad

- Sistema Brasileiro de Televisão–SBTSilvio Santos

- Grupo O Estado de São Paulo (Estadão)– família Mesquita

- Grupo Folha de São Paulofamília Frias

- Grupo Abrilfamília Civita (responsável por 70% do mercado de revistas do país, incuindo a Veja).

É importante ressaltar que alguns desses grupos possuem também portais na internet e agências de notícias (ex. UOL, da folha; globo.com; agência Estado; agência globo).
GRUPO 2

O segundo grupo de “donos da mídia” é composto por grupos nacionais e regionais com presença econômica expressiva e alguns fortes grupos regionais.
Entre estes grupos estão:
o Grupo RBS da família Sirostski no RS
as Organizações Jaime Câmara em Goiás e Tocantins
o Jornal do Brasil, no DF
a Gazeta Mercantil, em SP
GRUPO 3

O terceiro grupo é composto por grupos regionais de afiliados às redes nacionais de TV.
Neste grupo estão presentes as oligarquias regionais que, obviamente, controlam tanto o poder econômico, quanto o político.
Outra questão importante a ressaltar é que, embora vinculados às redes nacionais de TV, esses grupo locais controlam todo o sistema de comunicação regional por meio de inúmeras rádios e jornais.
Exemplos em alguns estados:
Ceará
família Jereissati (do Senador Tasso Jereissati - PSDB)
Rio Grande do Norte
família Maia (do Senador Jose Agripino Maia - DEM) e
família Alves (do Senador Garibaldi Alves Filho - PMDB)
Bahia
família Magalhães (do deputado ACM Neto - DEM)
Maranhão
família Sarney (do Senador José Sarney - PMDB)
Alagoas
família Collor (do Senador Fernando Collor de Mello - PRTB)
Sergipe
família Franco (do Senador Albano Franco - PSDB)
Pará
família Pires (do Deputado Vic Pires - DEM)
Mais detalhes no quadro 5 do arquivo anexo.
GRUPO 4

O quarto grupo é composto por pequenos grupos regionais de TV, rádio e jornais ou ainda por veículos de pequena participação no mercado de mídia, mas que muitas vezes são apêndices de fortes grupos que atuam em outros ramos da economia.
Um bom exemplo dessa situação é a TV Brasília, que durante um bom tempo foi propriedade do Grupo Paulo Octávio.
Ou seja, os pequenos grupos de mídia estão também, em sua maioria, sob controle do poder local.
É por isso que nos municípios do interior do país, o dono da rádio local é também o chefe político municipal.
Jornal do Brasil
O Jornal do Brasil é publicado na cidade do Rio de Janeiro e atualmente pertence ao empresário Nelson Tanure, do grupo Docas Investimentos, que também administra a revista Forbes no Brasil e agência de notícias InvestNews.
É tradicionalmente voltado para uma elite diminuta da classe alta que se concentra na Zona Sul do Rio de Janeiro e que se pretende formadora de opinião, a nível nacional.
Gazeta Mercantil
Apesar de haver fechado em maio de 2009, o jornal Gazeta Mercantil continua sob o controle acionário do grupo Docas Investimentos, do empresário Nelson Tanure, e conta com uma redação unificada com os demais produtos jornalísticos da empresa (JB, a Forbes e a agência de notícias InvestNews).
Histórico
A crise que deflagrou na transferência do controle acionário da família Levy para Nelson Tanure ocorreu no final da década de 90 e início dos anos 2000. Após anos de liderança absoluta no mercado, as contas da empresa se deterioraram e, ao mesmo tempo, a direção do jornal decidiu ampliar as áreas de atuação, com investimentos em internet e televisão.
As novas áreas contaram com parceiros que foram a Portugal Telecom, antiga controladora da Telesp Celular - atualmente Vivo, na web e a TV Bandeirantes e a TV Gazeta, controlada pela Fundação Cásper Líbero, na televisão.
O jornal passou pela crise e uma drástica reestruturação nos últimos anos.
Tinha uma tiragem de 70 mil exemplares de acordo com levantamento do IVC de julho/2007.
Em 25 de maio de 2009, Nelson Tanure anunciou que devolveria a administração do jornal aos proprietários anteriores, não se responsabilizando mais pela publicação a partir de 1 de junho.
Alegou que herdou dívidas de mais de 200 milhões de reais em processos trabalhistas.
Dessa forma, a última edição do jornal foi a de 29 de maio de 2009.
O grupo português Ongoing negou interesse em comprar o jornal "porque o título tem uma dívida muito grande", mas animou-se com a possibilidade de ingressar na imprensa econômica brasileira, aproveitando o vácuo deixado pela interrupção.
O grupo Ongoing estreou o jornal Brasil Econômico em 8 de outubro de 2009

domingo, 21 de março de 2010

ENTENDA O QUE É SPREAD BANCÁRIO

SÃO PAULO - O spread bancário no Brasil é o mais alto do mundo, o que provoca atritos entre o sistema financeiro e governos há anos. Spread é a diferença entre as taxas que os bancos pagam ao captar dinheiro no mercado e o juro que cobram nos empréstimos.

Essa nova onda de pressão de autoridades de Brasília sobre as instituições tem como pano de fundo a redução dos depósitos compulsórios, dinheiro que os bancos devem deixar parado no Banco Central (BC), estimado atualmente em R$ 270 bilhões.

Para aliviar os efeitos da crise no País, o governo liberou, ao longo dos últimos dois meses, aproximadamente R$ 97 bilhões, segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Apesar disso, o spread bancário médio subiu de 26,4 pontos porcentuais em setembro para 28,4 pontos em outubro.

Anualmente, a Fiesp faz um ranking de competitividade, conhecido como IC. Um dos itens que o compõem é justamente o spread bancário. No estudo deste ano, a entidade usou dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) relativos a 2007. Os números mostram que o Brasil liderava o levantamento, com spread médio de 25,3 pontos porcentuais. Em um distante segundo lugar estava a Colômbia, com 7,4 pontos, seguida pela França, com 7 pontos.

Um estudo do próprio Banco Central revelou que o spread brasileiro é composto por vários itens: custo administrativo (13,5% do total), inadimplência (37,35%), compulsório (3,59%), tributos (8,09%), outros impostos (10,53%) e margem líquida dos bancos (26,93%). Em outras palavras, dos 28,4 pontos do spread em outubro, a margem (lucro) das instituições era de 7,65 pontos porcentuais.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

http://www.estadao.com.br/noticias/economia,entenda-o-que-e-o-spread-bancario,314534,0.htm


Entendeu?

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ensaios Sobre a Economia dos Estados Unidos.

Resenha: Schincariol, Vitor Eduardo. Ensaios Sobre a Economia dos Estados Unidos. São Paulo: LCTE Editora, 2009.

A economia norte-americana dita o ritmo da economia mundial. Compreender a dinâmica do seu funcionamento e a forma como sua política econômica influencia o mundo, é a chave para entender o atual ordenamento político econômico internacional, principalmente o latino-americano, tendo em vista que a região é a que mais sofre influência norte-americana.

No sentido de facilitar e elucidar algumas questões de extrema importância sobre a economia dos Estados Unidos é lançado pelo historiador econômico e atualmente professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Alagoas, Vitor Eduardo Schincariol, um conjunto de artigos denominado “Ensaios Sobre a Economia dos Estados Unidos”, publicado pela LCTE Editora.

O livro contem 112 paginas, e divide-se em seis capítulos, na seguinte ordem: “Alguns aspectos do crescimento recente dos Estados Unidos: 1990 – 2001.” (cap.1); “Endividamento externo da economia dos Estados Unidos (1980 – 2004): uma interpretação Kaleckiana.” (cap.2); “A America Latina no período de hegemonia dos Estados Unidos: 1990 – 2005”. (cap.3); “Relações comerciais e financeiras da America Latina e China com os Estados Unidos, duas trajetórias muito discrepantes.” (cap.4); “Apontamentos sobre o endividamento externo dos Estados Unidos (1980 – 2004).” (cap.5); “Perspectivas da economia dos Estados Unidos: um olhar a partir da historia econômica recente”. (cap.6).

O objetivo principal do livro é mostrar que o endividamento externo norte americano, ao invés de ser um problema para o funcionamento de sua economia, foi à solução encontrada para minguar um plausível problema de queda nos níveis de consumo e de investimento, tendo em vistas que outras variáveis como a taxa de lucro que dentem centralidade na determinação dos níveis de crescimento da economia, se mantém estagnadas, principalmente nos setores da chamada economia real; - “na presença de menores taxas de endividamento, a contra-resposta da demanda efetiva pelo aumento do consumo e dos déficits federais teria se revelado bem menor, com impactos ainda mais negativos sobre o PIB.”(p.37). E que a sua capacidade de atrair capital está integralmente vinculada ao seu poderio político-militar que, além de outras façanhas, lhe permite manter o dólar como “moeda de livre curso internacional”.

É importante também ressaltar algumas colocações que o autor faz sobre a América Latina, dentro de uma perspectiva crítica, destacando alguns problemas já apontados anteriormente, sob diferentes visões, por autores como Ruy Mauro Marine, Celso Furtado, Noyola Vásquez dentre outros, que propunham medidas diferentes das que foram tomadas pelos dirigentes das economias latino americanas sob ingerência norte americana. Como Schincariol lembra; “Seguiu-se nos anos 1990 um caminho oposto às reformas que se consideraram necessárias para chegar-se ao desenvolvimento econômico. O resultado foi o agravamento do subdesenvolvimento . Não há economias ‘emergentes’ , de fato. O termo é um embuste completo.” (p.45).

“Diagnósticos irrefutáveis construídos com base em análises cujos interesses eram os das maiorias – como a necessidade de um controle maior da atuação das empresas estrangeiras, derivadas da teoria do subdesenvolvimento desenvolvida por varias escolas (Prebisch, Furtado, Kalecki, Baran, etc.) - são ‘esquecidos’ em troca de favores econômicos e políticos. A miopia analítica, o arrivismo e o cinismo explicam porque se recusa a enfrentar temas espinhosos ou considerados ultrapassados. Num período de crise social, a crítica foi sacrificada no altar do formalismo”. (p.55).

Posteriormente é feita uma análise das relações comerciais e financeiras da América Latina e China com os Estados Unidos - que dotada de alguns dados empíricos oficiais, traz a tona alguns questionamentos de pouca notoriedade na grande mídia e nos ‘ambientes’ acadêmicos hegemônicos - na qual o autor aponta os diferentes tipos de relações travadas entre esses países. Enquanto a China consegue estabelecer relações comerciais e financeiras com os Estados Unidos, que claramente tem sido benéfica para o seu projeto nacional de se tornar uma grande potência econômica – “O circuito do capital entre China e Estados Unidos está estruturalmente de acordo com a lógica de que os chineses investem nos Estados Unidos para receberem recursos oriundos desses investimentos. Eles apontam numa só direção : investe-se domesticamente com capital próprio – ou asiático- paga-se pouco em remessas de lucros ao exterior , e remete-se aos Estados Unidos não recursos produtivos , mas sim recursos que diversifiquem a carteira de investimentos e que sirvam a fins estratégicos(manutenção do valor do câmbio, por exemplo).”(p.66).- , a América Latina continua sendo subserviente nas suas relações políticas, financeiras e comerciais com os Estados Unidos mantendo-se como uma ‘neocolonia’- “A América Latina , por seu turno, exporta muito capital produtivo, levando a noção de que suas relações financeiras com os norte americanos são do tipo neocolonial : a acumulação doméstica ajuda a acumular no centro do sistema , não sendo o excedente local em sua maior parte investido localmente”(p.64) .

A obra como um todo é dotada de uma coerência que facilita bastante o entendimento do leitor, e nos mostra que “o estudo histórico-econômico dos agregados pode levar a perspectivas mais abrangentes e objetivas do que o discurso e análise do curto prazo podem trazer.” (p.27).

José Humberto Silva Filho

Bacharelando em Ciências Econômicas

UFAL

domingo, 31 de maio de 2009

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Marx, as crises e a "desregulação financeira"


A causa das crises econômicas, do ponto de vista marxista, é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam espaço para a continuidade do processo de acumulação. Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. O artigo é da economista Leda Paulani, o terceiro da série "Marxismo e Século XXI", organizada pela Carta Maior, com curadoria de Chico de Oliveira.
Leda Paulani
No terceiro texto da Série ‘Marxismo e Século XXI” - seminário virtual organizado por Carta Maior, com curadoria do sociólogo Chico de Oliveira - a economista Leda Paulani aborda a conceituação das crises cíclicas do capitalismo. Ela explica que Marx enxerga nas crises uma característica definidora do capitalismo, o modo pelo qual o sistema funciona, não o modo pelo qual ele falha. A causa das crises, do ponto de vista marxista, é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam espaço para a continuidade do processo de acumulação. Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. Leia o artigo de Leda Paulani.Em artigo de seu clássico livro The Wordly Philosophers, Robert Heilbroner afirma que, conforme Marx, as crises servem para renovar a capacidade de expansão do sistema, sendo assim o modo pelo qual ele funciona, não o modo pelo qual ele falha. Não há forma mais concisa para expressar o que pensava o profeta mouro desses fenômenos.Bem ao contrário do que postula a economia convencional, para a qual o estado normal da economia capitalista é a harmonia e o equilíbrio, sendo as crises momentos incomuns, rapidamente corrigidos se o mercado for deixado em paz, Marx enxerga nesses eventos a característica definidora do capitalismo. Vendo-o como um sistema complexo e dinâmico, movido a contradições, esses episódios são, para ele, tão naturais quanto necessários. Na visão de Marx, a crise é o momento em que as contradições se materializam e exigem solução, sob pena de se comprometer a viabilidade do sistema. A causa das crises é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam o espaço para a continuidade do processo de acumulação. Tanto nos momentos de aceleração e auge quanto nos de desaceleração e crise, o lado produtivo e o lado financeiro operam combinadamente, cabendo ao último um papel multiplicador, pois ele tende a inflar a economia nos momentos de crescimento, tornando mais profundos, por conseqüência, os momentos de crise. Mas o pressuposto aí é que o lado produtivo comande o processo (o que não significa que ele possa por isso ficar imune ao trabalho amplificador que o lado financeiro produz).Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. A riqueza financeira, constituída em boa parte por aquilo que Marx denominou capital fictício, cresce exponencialmente, enquanto o crescimento da renda real (PIB) e, por conseguinte, da riqueza real, dá-se de modo muito mais lento. Com isso, o sistema fica estruturalmente frágil, dado que o caráter rentista da propriedade do capital se choca com o desenvolvimento vagaroso da produção de valor excedente. As pressões que se exercem sobre o setor produtivo são por isso enormes, justificando toda sorte de barbarismos e retrocessos na relação capital-trabalho. Ademais, o sistema fica muito mais exposto às crises provocadas pelos movimentos dos estoques de riqueza (ativos), que caracterizam o lado financeiro do sistema. Dos anos 1980 para cá, o capitalismo já experimentou pelo menos cinco grandes crises, contando a maior delas, esta que ora presenciamos. Todas essas conturbações foram provocadas pela intensa mobilidade do capital financeiro planeta afora, com a recorrente formação e estouro de bolhas de ativos. A forma de “resolver” essas crises tem jogado para frente, de forma magnificada, o mesmo problema, pois busca salvar a riqueza financeira da fogueira que ela mesma provoca. (*) Leda Paulani é professora titular do Departamento de Economia da FEA/USP

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Marolinhas Selvagens


José Martins








Brasil já está entre os países mais atingidos pela crise mundial do capitalismo.



Atenção Macunaíma da Silva: aquela idéia idiota dos teus economistas e da tua mídia que a economia brasileira seria menos afetada pela crise que as demais economias dominadas do BRIC (sigla referente a Brasil, Rússia, Índia e China, as quatro maiores emergentes) está definitivamente desmentida pelos fatos. É o que demonstram os números da OCDE em seu mais recente relatório dos indicadores antecedentes (06/mar/2009).

Isso é importante porque durante vários meses depois da eclosão da crise a economia brasileira era a única que ainda não aparecia nos radares da OCDE na perspectiva de “forte desaceleração”. Isso é coisa do passado. Agora a situação mudou. E o que mais chama atenção não é a mera entrada do Brasil na perspectiva sombria de “forte desaceleração”, mas da virulência com que isso está acontecendo. Vale a pena listar alguns números do relatório citado.



Para comparação acrescentamos EUA e México aos BRICs. Os primeiros, porque é da economia de ponta que se irradia as ondas magnéticas para o resto do sistema. O México, para medir melhor a intensidade da crise no Brasil em relação aos demais países da América Latina. Outra observação preliminar: para facilitar o entendimento, imaginemos esses índices da tabela acima como medições mensais da “pressão sangüínea” das diversas economias listadas. Também para efeito analítico, deve-se considerar que a elevação desses índices da tabela representa expansão das economias e redução representa desaceleração ou crise.

O que primeiro salta aos olhos desta tabela é que a situação do Brasil se agravou terrivelmente de Novembro 2008 para cá. Até então, como vimos em outros boletins, essas medições da OCDE ainda sinalizavam “expansão” para a maior economia da América Latina, enquanto todo o restante das grandes economias mundiais (incluindo as parceiras do BRIC) já sofriam as dores insuportáveis da ressaca cíclica com a perspectiva de “forte desaceleração”.

Os EUA já apresentavam queda de pressão contínua e crescente desde Janeiro de 2008. Entre Agosto e Setembro iniciou-se concretamente o desabamento. A China ainda resistia (aparentemente) até os meses de Maio e Junho. A partir de Agosto/Setembro sincronizou-se milimetricamente aos EUA (logo ultrapassando) e sinalizando com mais clareza o seu desabamento. Neste momento, a queda de pressão do país mais populoso do mundo (-14.81) só perde para a da Rússia (-19.36). A Rússia, como o Brasil, também estava exuberante até meados de 2008. Com a queda fulminante dos preços do petróleo e do gás natural, em Agosto/Setembro, desabou estrondosamente. A Índia foi a participante do BRIC que apresentou a evolução mais regular do desabamento, seguindo até nos números mensais a evolução dos EUA. A Índia é a mais previsível das grandes economias mundiais. Por isso a falta de interesse que desperta no dia-a-dia do mercado global.

O México, grande exportador de petróleo e de plataformas de exportação (maquiladoras), surpreendentemente sinaliza um desabamento muito menos catastrófico do que o Brasil. Vejam que a queda mexicana foi até agora muito mais lenta (-3.69 em fevereiro/2009) do que nas demais grandes economias listadas na tabela acima. Isso transparece na queda relativamente modesta de 2.7% do seu PIB no quarto trimestre 2008, frente aos 3.6% ocorridos no Brasil no mesmo período, como vimos no boletim anterior.

A pressão sanguínea do Brasil só sinalizou com clareza o seu desabamento na virada de Outubro (-2.76) para Novembro (-5.07). Os índices de Dezembro (-7.61) e de Janeiro 2009 (-10.14) sinalizam a reversão cíclica mais catastrófica, pela sua intensidade, de todas as demais economias mundiais (com exceção da Rússia, mas esta é um caso particular, devido ao peso do petróleo na economia). No próximo relatório da OCDE deverá ter caído abaixo do índice dos EUA e sincronizado catastroficamente com China e Rússia.

A marolinha prevista por Macunaíma da Silva, o folclórico presidente do Brasil, se iguala finalmente a marolinhas bem mais selvagens da Ásia e Leste Europeu, superando assim, pela primeira vez, a gravidade da “crise do Bush”, como ele se referia ao mais potente choque global de superprodução de capital desde os anos 1930.

* Este texto foi publicado no boletim Crítica Semanal da Economia.